Mané Garrincha terá shopping anexo

O Governo de Brasília quer emplacar um novo shopping center na área tombada, entre o Estádio Nacional Mané Garrincha e o Ginásio Nilson Nelson. A ideia integra o projeto da ArenaPlex, pretendida como Parceria Público-Privada (PPP) para gerir não só as arenas como também o Parque Aquático Cláudio Coutinho.
A Agência de Desenvolvimento do DF (Terracap) tem conseguido, a fórceps, avançar a proposta internamente. Ela afirma, inclusive, que já recebeu a chancela do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e que apenas espera um OK do Conselho de Planejamento Territorial e Urbano (Conplan) para lançar um edital até o fim de 2017. Faltou combinar a resposta com o Iphan, porém.

O instituto afirma nunca ter recebido um projeto referente ao ArenaPlex, somente uma “minuta de Plano de Uso e Ocupação do Setor de Recreação Pública Norte”. O órgão foi enfático, por meio de nota, ao dizer que o documento enviado “não se constitui em projeto”.

Após saber da resposta do Iphan, a Terracap afirmou que houve uma confusão criada pela palavra chancelar, utilizada na primeira nota enviada. O gerente de formatação de negócios da Agência, João Veloso, confirmou o envio apenas de uma minuta ao instituto, mas fez a ressalva que o órgão “achou a iniciativa positiva” e somente pediu mais informações e ajustes. “Eles entendem a necessidade de dinamizar o uso da área”, assegurou.

Segundo ele, não haverá um shopping no local, mas um pedestrian mall ou bulevar, como a empresa se habitou a chamar. Segundo a Agência, se trata de “um centro comercial, com restaurantes, bares e pequeno comércio”. Cabe dizer que, em inglês, “centro comercial” é traduzido como “shopping center”.

O novo Mané Garrincha foi a obra mais cara da Copa do Mundo de 2014 no Brasil. Entre estimativas da secretaria de Esportes da época, do Ministério de Esportes da época e do Tribunal de Contas do DF (TCDF), que investiga irregularidades na construção, custou entre R$ 1,4 bilhões e R$ 2 bilhões.

A manutenção do espaço custa cerca de R$ 500 mil mensais ao governo. Por isso, Rollemberg quer colocar o espaço nas mãos de empresários, na tentativa de diminuir a sangria.

Em busca de saída também no autódromo

O Governo de Brasília tem tentado vender a ideia das PPP como solução para os espaços que custam muito dinheiro e contam com gestão ruim. Conforme mostrou o Jornal de Brasília em 4 de setembro, existem 15 propostas pretendidas por Rollemberg até o fim de seu mandato, mas nenhuma decolou.

Devido a episódios polêmicos, em especial referentes ao Centro Administrativo de Taguatinga (Centrad), o empresário tem se ressabiado de demonstrar interesse nas parcerias com o governo. No caso do Centrad, por exemplo, as empreiteiras contratadas ainda não receberam um centavo pela execução da obra, por conta de contestações judiciais.

Ao lado do ArenaPlex, o governo tenta dar solução também para o Autódromo Internacional Nelson Piquet, desativado em 2016 para reformas, nunca concluídas. O espaço está destruído pelo início das obras, mas só deve ter a administração retomada depois de ser passado a alguma empresa. Novamente, faltam interessados.

Conforme o Buriti, a expectativa é economizar, pelo menos, R$ 25 milhões com a criação das 15 PPP pretendidas. A realidade, no entanto, são gastos continuos com os espaços sem perspectiva de solução.

PONTO DE VISTA
O arquiteto e urbanista Antônio Carlos Cabral Carpintero diz não compreender as intenções do Governo de Brasília com essa proposta. “É mania de fazer shopping em tudo”, dispara. Para ele, se essa ideia se concretizar, deslocaria a área comercial da região e “mancharia uma área limpa”. “Se fizerem isso ali, vai parecer que em todo lugar pode. Se bobear vão construir um shopping no meio da Esplanada. É um precedente perigoso e ruim”, critica. Ele acredita que, se o Iphan concordar, deve ter sua credibilidade contestada.

(Jornal de Brasília, 11.10.17)

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