Seca deve dar trégua ao DF, mas governo descarta fim do racionamento

Chuvas de dezembro elevaram os níveis dos dois maiores reservatórios de água do Distrito Federal: Descoberto e Santa Maria

O primeiro mês de 2018 reserva projeções otimistas quanto à luta contra a crise hídrica. A previsão do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) é que, em janeiro, as chuvas enquadrem-se na média de 247,4mm ou superem a normalidade. O alto nível de precipitações deve impulsionar a recuperação dos reservatórios do Descoberto e de Santa Maria, que atingiram o volume útil de 30,1% no último domingo, segundo a Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico (Adasa). O percentual representa o dobro do nível mínimo estimado pelo órgão para janeiro deste ano. São boas novas para os 3 milhões de habitantes do Distrito Federal que convivem há 351 dias com o racionamento de água.
Apesar das perspectivas, a palavra de ordem permanece a mesma: economia. Isso porque, ainda que as estimativas se concretizem, está descartado, por ora, o fim do rodízio. “O que precisamos é dar oportunidade para os reservatórios se recuperarem. Além disso, temos de incorporar o uso racional da água na nossa cultura. Fechamos 2017 melhor do que iniciamos, mas há muito a ser feito: investiremos em infraestrutura e aguardamos muita chuva”, afirmou ao Correio o presidente da Companhia de Saneamento Ambiental do DF (Caesb), Maurício Ludovice.
A ponderação é pertinente. Em 2017, apesar do volume de chuvas 12% superior ao do ano anterior, as precipitações ficaram abaixo do esperado. O último registro do Inmet mostrou o acúmulo de 1.302,3 milímetros, 15,46% menor que a média anual, de 1.504,6mm. Em dezembro, por[em,o volume de chuvas superou as expectativas para o mês. Até as 17h de sábado, havia chovido no DF 265,8 milímetros —índice acima da média histórica, de 246 milímetros.

Até março

Não há como prever o comportamento das chuvas ao longo de 2018. Ainda assim, a meteorologista Odete Kiese, do Inmet, estima que janeiro será de calor, umidade e pancadas de chuva. “A nebulosidade, proveniente de ventos do Noroeste (região amazônica), favorece precipitações no Centro-Oeste e no Sudeste. Com isso, a previsão é que chova dentro da média ou até mais”, destaca. O cenário deve permanecer até o fim do período chuvoso, em meados de março. A temperatura mínima prevista até o próximo sábado é de 18ºC, e a máxima, 29ºC. A umidade do ar deve variar entre 95% e 50%.

Caso seja confirmado, o panorama mostra-se ainda mais positivo quando comparado a janeiro de 2017, mês em que choveu cerca de 50% abaixo da média histórica. À época, o Inmet informou que a situação decorria de reflexos remanescentes do fenômeno El Niño, que impedia a formação de nuvens no Centro-Oeste e provocava estiagem. A seca impactou diretamente os níveis dos reservatórios, e o governo determinou o início do rodízio de água.

Para aliviar a necessidade de pancadas de chuva para a subida dos níveis dos reservatórios, a Caesb apostou na redução de 370 litros por segundo da quantidade de água que sai do Descoberto. Além disso, a concessionária fez obras para que as regiões abastecidas pela bacia recebam água do sistema Santa Maria-Torto. Com as iniciativas, a expectativa é de uma economia de 700 litros por segundo na principal barragem do DF em 2018.

Dificuldades

Enquanto as barragens do Descoberto e de Santa Maria seguem em uma situação delicada, o brasiliense continua a sofrer com os contratempos decorrentes do racionamento. A dona de casa Rebeca Coelho, 26 anos, conta que, há cerca de três meses, o religamento da água tem demorado mais que o esperado; portanto, o serviço fica instável por tempo superior a 48 horas. Para fugir do aperto, Rebeca acumula água em, pelo menos, cinco baldes, bem como panelas e vasilhas. “Apesar da irregularidade, o valor da minha conta não muda. Pago R$ 120 todos os meses. [E injusto, pois, agora, a água não vem no horário combinado pela Caesb”, destaca.

No restaurante Pimenta Malagueta, que funciona há 10 anos no centro de Ceilândia, a água também demora cerca de três horas a mais que o previsto para chegar. A inconstância começou em outubro. Assim, a dona do restaurante, Cecília Carvalho, 63, armazena 4 mil litros de água para emergências. “Não chegam explicações para nós. Mesmo com as barragens começando a respirar, a situação aqui em Ceilândia está precária”, concluiu Cecília.

Outra saída é a reeducação. Gerente do estabelecimento, Douglas Carvalho, 39, idealizou um treinamento para os 10 funcionários aprenderem maneiras simples de gastar menos água. “Começamos no início do racionamento. Primeiro, eles fazem higienização dos utensílios com um pano úmido de sabão. Depois lavam e, em seguida, enxáguam”, explicou. A iniciativa gerou uma economia de 35% do gasto de água no comércio, garante.
Confira as metas mensais estipuladas pela Adasa para o reservatório do Descoberto. Caso atinja tais níveis, agência adota novas medidas de racionamento:

Dezembro de 2017 – 11%
Janeiro de 2018 – 15%
Fevereiro de 2018 – 32%
Março de 2018 – 43%
Abril de 2018 – 50%
Maio de 2018 – 50%

(Correio Braziliense, 2.01.18)

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