ONGs propõem soluções adotadas em outros países para sanar crise hídrica no DF

Tecnologia de reúso de água está entre opções adotadas pelos EUA. Ambientalistas também citam a possibilidade de compra de ‘áreas sensíveis’ para reflorestamento, como aconteceu no Japão

Na semana em que o Distrito Federal completa um ano vivendo sob regime de racionamento de água, ambientalistas procurados pelo G1 traçaram soluções que já foram adotadas em outros países e que poderiam ser replicadas ou intensificadas no Distrito Federal para amenizar impactos da crise hídrica na capital federal.

Como inciativa de destaque, especialistas da ONG ambiental WWF citaram o sistema de reúso de água em prédios públicos, hotéis e em grandes edifícios da cidade de Las Vegas, nos Estados Unidos. Apesar da medida já ser, em parte, adotada no Distrito Federal, a organização acredita que as ações devem ser incentivadas com mais empenho.

Outra solução citada como possível para escassez hídrica na região do DF seria a medida que já foi adotada, em 2015, no estado norte-americano da Califórnia. Na época, o governo do estado norte-americano, segundo um levantamento da WWF, optou por pagar aos seus moradores para que substituíssem plantas exóticas por plantas nativas – mais adaptadas ao clima local e com menor consumo de água.

A Califórnia é uma das regiões mais populosas dos Estados Unidos e, há três anos, enfrentou uma das piores secas já registrada nas últimas décadas. O estado também passou a aplicar multas de US$ 500 por dia em quem fosse flagrado desperdiçando água potável para lavar calçadas ou carros.

Além disso, para evitar prejuízos no abastecimento, a região adotou o bombeamento de águas subterrâneas para uso humano, e a água reciclada passou a ser represada para irrigação e descargas sanitárias.

Como exemplo de medida extrema para lidar com o racionamento, o governo da Califórnia também sugeriu a remoção do paisagismo de casas, centros comerciais e campos de golfes, incluindo na lista até os cemitérios. A meta do governo era substituir os jardins por plantas que toleram a seca.
Oriente Médio
Já a The Nature Conservancy (TNC), ONG americana com sede no Brasil, destaca a solução adotada por Israel – país com grande parte de sua extensão tomada por deserto – como bom exemplo de reaproveitamento de água. Localizado no Oriente Médio, o Estado desenvolveu tecnologias capazes de dessalinizar a água do mar e outras capazes de extrair água de geadas.

Apesar do DF não contar com saídas para o mar, a especialista em conservação da TNC, Lícia Maria de Azevedo, afirma que o exemplo israelense pode ser aproveitado na redução de desperdício de água na área agrícola do Distrito Federal.

“Áreas rurais de Israel utilizaram a tecnologia de ponta e conseguiram trabalhar na melhoria e uso eficiente da água na irrigação. Além de trazer desenvolvimento rural, melhorou a questão do desperdício.”
Incentivo financeiro no Japão
Em Tóquio, no Japão, as autoridades promoveram regimes especiais de manejo da principal bacia que abastece a cidade, a do rio Tama. Como alternativa de enfrentamento à escassez de água, o governo se propôs a comprar áreas consideradas “sensíveis” para fazer o reflorestamento e assim recuperar regiões degradadas.

Houve ainda investimentos para captação de chuva e reaproveitamento da água, além de combate a vazamentos para reduzir perdas durante o consumo. No país, a perda de água estimada é de 9%. Em Brasília, esse índice varia de 30% a 35%, de acordo com a Companhia de Saneamento Ambiental do DF (Caesb).

Esse percentual representa a água que não é medida – seja porque escapou da tubulação (provocada, por exemplo, por rompimento de adutoras), seja por causa de ligações clandestinas. Ou seja, quase um terço da água produzida no Distrito Federal não chega às torneiras regulares.
A longo prazo
De volta aos EUA, em Nova York, o governo instituiu um programa para troca e modernização de tubulações de água. A medida foi tomada antes da sequência mundial de crises hídricas, em 1997 – há mais de 20 anos. Na época, também foram criadas normas especiais para uso do solo em áreas críticas para a segurança hídrica.

No fim da década de 1990, o governo nova-iorquino investiu US$ 1bilhão para comprar as áreas e para modernizar o sistema de tratamento e distribuição de água em casas e comércios da região. “Da nascente até a torneira, [a medida] trouxe segurança hídrica para uma das maiores cidades do mundo”, dizem ambientalistas da WWF.

As soluções são viáveis para o DF?
Questionadas sobre a viabilidade de implnatação das alternativas no Distrito Federal, as organizações ambientais garantem que “todas essas soluções são aplicáveis para região”. Muitas, inclusive, já constam em leis como o Plano Diretor de Uso do Solo e o Código Florestal.
A TNC considera que a mudança começa na conscientização da população com o consumo de água. Um exemplo de solução que, na visão da ONG, deve ser reforçada é a adoção dos hidrômetros individualizados.
Intensificar a captação da água de chuva em áreas urbanas e rurais também é uma alternativa, afirma a especialista Lícia de Azevedo. “É uma tecnologia muito fácil de ser aplicada, assim como o incentivo para melhoria do consumo de água da descarga e o uso de torneiras mais eficientes para evitar desperdícios”.

(g1.globo, 19.01.18)

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