Conseguir emprego já demora mais de um ano

O desemprego nunca esteve tão alto e o tempo de espera da População Economicamente Ativa (PEA) para conseguir o próximo trabalho é o maior já registrado. A constatação é de uma pesquisa do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) em conjunto com a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), que estimou em 14 meses o prazo para os trabalhadores conseguirem uma ocupação depois do último serviço.

Na virada de 2016 para 2017, a mesma pesquisa registrou o tempo de desemprego médio de 12 meses, o que mostra evolução da ociosidade, a despeito de índices econômicos positivos previstos para o ano passado. Na última segunda, por exemplo, o Banco Central divulgou, por meio do Índice de Atividade Econômica (IBC-Br), expectativa de crescimento de mais de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2017, após dois anos de quedas.

A pesquisa da SPC Brasil com a CNDL também mostrou que a maior parte destes desempregados são mulheres (59%) com idade média de 34 anos, mães de filhos pequenos (58%), com apenas Ensino Médio completo (54%) e pertencente às classes C, D e E (95%). As amigas Bianca Lopes Santos, 24 anos, em busca de emprego há um ano, e Saritta Paula Carneiro, 39 anos, na luta há 14 meses, portanto, integradíssimas à estatística.

Bianca revela que consegue se manter por meio do dinheiro da pensão recebida do ex-marido e com bicos que faz de vez em quando. Para ela, a dificuldade de se reposicionar no mercado tem a ver com qualificação. “Passei por entrevistas que exigem muito. Mesmo para vagas de trabalho administrativo, de auxiliar, tem lugar exigindo faculdade”, aponta.

Segundo ela, seus filhos — um de 1 ano e o outro de oito anos — também são vistos pelos empregadores como empecilho, pois vários locais teriam restrições a mulheres nessas condições. Sua colega Saritta, porém, não é casada, não teve filhos e também encontra dificuldades, desta vez por conta de sua idade. “Eles olham uma mulher de 39 anos e pensam em alguém gordo, cheio de filhos. Quando vou a uma entrevista passo muita maquiagem, para parecer o mais jovem possível”, desabafa.

Ela conta ter pedido demissão do último emprego em uma instituição de crédito por não aguentar o “constante assédio moral para bater metas”, mas garante não se arrepender. “Prefiro ganhar R$ 1 mil em um local sem metas do que R$ 4 mil em um com essa pressão”, diz.

Demitido aceita cargo com salário menor

O fato de Saritta se contentar com um emprego de menor remuneração em relação ao seu último trabalho não é um caso raro. Na pesquisa da SPC Brasil e CNDL, 61% dos entrevistados se mostraram dispostos a aceitar salários menores, 5% a menos na comparação com o levantamento do último ano, mas ainda assim um número expressivo, como aponta Marcela Kawauti, economista chefe do SPC.

“Ainda é muito elevado, apesar da redução. Isso mostra que, mesmo que o IBGE mostre queda do desemprego (no futuro próximo,) isso não significa que o Brasileiro vai ter dinheiro no bolso”, analisa. Essa situação tem também afetado a confiança do trabalhador. Na virada do último ano, 93% dos entrevistados se sentiam em condições de conseguir um novo emprego, enquanto no levantamento de 2018, esse percentual caiu a 78%.

“Com o desemprego longo, existem dois problemas. As pessoas deixaram de estudar e ficam menos produtivas. Se quando a pessoa sai de férias demora para ela voltar a pegar no tranco, imagina quem passou mais de um ano fora? A versão do Word mudou, a forma de a coisa ser trabalhada mudou”, faz a ressalva Kawauti, que, no entanto, faz boas projeções para o ano.

“Muitos vão aceitar empregos informais. Nessa questão, vale destacar que quando a gente fala em emprego informal pensa-se em subemprego, mas a informalidade não precisa ser assim, pode ser só um modo de a pessoa voltar ao mercado. Sempre que voltamos de recessão o primeiro passo é a contratação informal pois os empresários estão mais cuidadosos”, crava a economista.

(jornaldebrasilia.com, 21.02.18)

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