Quase 5 milhões de jovens estão endividados

A quantidade de jovens entre 18 e 24 anos endividados, principalmente junto a bancos, vem decrescendo desde 2013. Mesmo assim, ainda são 4,81 milhões os rapazes e moças negativados no começo deste ano, um quinto de toda a população nessa idade.

Conforme pesquisa do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), do montante de devedores no Centro-Oeste em janeiro de 2018, 7,8% são pessoas nessa faixa etária, a região com o maior percentual do País, seguida pelo Sul (7,6%) e Norte (7,4%).
O principal credor é o banco, responsável por metade do total de endividados tanto no Brasil quanto no demonstrativo de 18 a 24 anos. De acordo com a economista-chefe do SPC Brasil, Marcela Kawauti, esse tipo de estatística ajuda as instituições financeiras a justificarem os juros de até 500% dos cartões de crédito, o rotativo mais alto da América Latina. Para ela, no entanto, a falta de educação financeira dos brasileiros é o grande culpado.

Kawauti afirma que o desemprego em alta – taxa média de 12,7% ao fim de 2017, a mais alta da história – ajuda a explicar a inadimplência, mas mesmo em cenários favoráveis há casos de muitos negativados. “Existe a falta de priorização de certas dívidas. As pessoas sabem que usar de maneira ruim o cartão vai gerar dívidas, mas continuam usando. Tem a ver com a falta de educação básica sobre isso, é sobre cultura”, opina.

Por mais cruel que pareça a fala da economista, existem exemplos. O atendente Diese Portela de Souza, 20 anos, admite que, apesar de morar sozinho, contraiu a maior parte das dívidas no cartão de crédito pelo investimento em vestuário que gosta de fazer. “Meus amigos também. A maioria está devendo por causa do cartão”, atesta. Apesar do mea culpa, ele critica a maneira de agir dos bancos. “Eles vão oferecendo crédito, aumentar seu limite, e quando você vê, já tem muita coisa”, reclama.

Do outro lado da moeda, está Ednardo Mendes Xavier, 19 anos, assistente de suporte de TI. Ele garante não ter pendências com bancos ou qualquer outro credor e cita a educação básica que recebeu no lar. “É uma coisa que vem de casa. Seria interessante ter aulas de educação financeira nas escolas, pelo menos a partir do Ensino Médio”, sugere. Exemplos como o dele fazem parte da realidade que surge, com redução da participação dos jovens no total de devedores de 13,6% em 2010 para 6,12% em 2018.

Dívidas versus progresso

A economista-chefe do SPC, Marcela Kawauti, ressalta que apesar de ser uma boa notícia a redução da participação dos jovens na inadimplência, é muito preocupante que ainda existam quase 5 milhões de endividados nessa faixa etária. Segundo ela, o quadro pode fazer com que esse grupo, quando recuperar os empregos, priorize a quitação de dívidas e demore a voltar a injetar dinheiro na economia.

“Alguém sempre não vai pagar uma conta porque vai haver um imprevisto. Mas há muita gente que brinca com fogo. A quantidade de negativados mínima deveria se referir só ao imprevisto. Nos jovens é preocupante, porque elas deveriam estar aprendendo”, diz a economista.

Ela não sabe apontar o porquê de a região Centro-Oeste ter maior representatividade dos moços e moças na estatística de endividados, pois seria preciso um estudo mais prolongado do tema.

No total, a recessão econômica do País, vivida com intensidade nos últimos dois anos, levou a que mais de 60 milhões de brasileiros contraíssem dívidas, cerca de 3 milhões a mais em relação a 2016. Como agravante, 50,4% deles tiveram problemas junto a bancos, segundo o Serasa Experian. São mais de R$ 270 bilhões em dinheiro a ser pago, com juros correndo.

Diante da pouca perspectiva de retomada rápida das vagas de trabalho e sem projeção de medidas par aquecer a economia, como a liberação do inativo do FGTS em 2017, um velho ditado volta ao cotidiano. O brasileiro deve, não nega, mas só paga quando puder.

(jornaldebrasilia.com, 27.02.18)

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