Em 2060, um em cada 10 brasileiros terá mais de 60 anos

Empresas que não se adaptarem perderão competitividade no mercado de trabalho

Ou as empresas se adaptam desde já às mudanças que virão no mercado de trabalho ou perderão a competitividade. Em pouco mais de quatro décadas, o mundo terá mais profissionais seniores do que jovens. Em 2060, em cada 10 brasileiros, um terá mais de 60 anos e essa mão de obra precisará ser bem aproveitada pelas organizações. Estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV/SP), em parceria com a Aging Free Fair, entretanto, mostra que o país não está preparado para o novo contexto demográfico. E pior: não inseriu esse público no mercado por preconceitos e conservação de estereótipos.

“As organizações são o microcosmo da sociedade. A discriminação está presente, principalmente em relação às mulheres. Porém, no futuro, teremos poucos jovens disponíveis. As empresas que entenderem logo isso ganharão vantagem competitiva em relação às concorrentes”, explicou Vanessa Cepello, professora e pesquisadora de Organizações e Pessoas da FGV e coordenadora da pesquisa Envelhecimento nas organizações e a gestão da idade, que será apresentada hoje, no 1º Fórum de Talentos Grisalhos. O estudo aponta contradições. Das 140 empresas pesquisadas, 75% preferem os jovens. Entre os motivos, 30% afirmaram que os seniores oneram os custos com planos odontológicos e de saúde.

Investimento

Um contrassenso, disse Vanessa, porque, ao mesmo tempo, 84% admitiram que os mais velhos têm boa condição de saúde, 74% disseram que eles sofrem menos acidentes de trabalho e, para 69%, têm mais capacidade de solução de problemas. “Com todas essas características, não são mais caros. O que falta é incentivo e investimento nas relações intergeracionais. Mas 88% das empresas nem sequer desenvolvem campanhas específicas para seleção de talentos grisalhos”. De acordo com o estudo, os principais benefícios em contratar idosos são experiência profissional e conhecimentos técnicos (70%); e comprometimento e senso de responsabilidade (54,29%).

Entre as barreiras que impedem a contratação, foram citadas dificuldade de lidar com novas tecnologias (62,14%); falta de flexibilidade e adaptação às mudanças (48,57%); dificuldade de reconhecer liderança dos mais novos (45%) e de atualização às exigências do mercado (42,43%). Para as mulheres, a situação ainda é mais difícil. “As executivas se sentem velhas aos 40 anos, 10 anos mais cedo que os homens. A partir dessa idade, têm mais medo do desemprego e mais contratempos na recolocação, embora vivam mais e sejam mais qualificadas”, lembrou Vanessa Cepello.

Fátima Nery, 56 anos, percebe nos olhares que a idade incomoda. Começou a trabalhar em 1983, como assistente. Hoje é dona de um salão. “Apesar de reconhecida pelo meu trabalho, até hoje, quando participo de algum curso, olham-me como se eu fosse um ET”, contou Fátima. Ela é colorista, com várias especializações no exterior. “E me reinvento a cada dia. A experiência é importante até no momento do erro. Porque, aí, o fundamental é saber consertar”, orgulha-se. “Reinventar-se” é o que faz a maioria de suas colegas de salão. Com 35 anos de profissão, não aceito que achem que sou apenas uma senhora. Isso é muito ruim”, reclama.

(correiobraziliense.com, 10.04.18)