Despreparado, país deverá ser alvo fácil para ações de fake news

Mesmo com o poder das notícias falsas verificado em eleições e plebiscitos internacionais, o Brasil se prepara mal para enfrentar mercenários nas redes. A partir de depoimentos de investigadores e entrevistas com policiais e procuradores, o Correio conta as dificuldades na defesa da democracia e os bastidores de ações ainda pouco efetivas de proteção contra ataques durante a campanha

“Desligue sua mente, relaxe e flutue correnteza abaixo”

A primeira frase de Tomorrow never knows, dos Beatles, ainda espoca na cabeça do perito criminal R.S.. Assim como na música de Lennon e McCartney, a mente deve estar desligada de tudo, apenas focada na investigação. É o que acredita o homem com pouco mais de 35 anos, um especialista no combate a crimes cibernéticos. E, naquele dia, há pouco mais de cinco anos, R.S. tinha em mãos um caso intrincado envolvendo ameaças a uma autoridade da República.

A primeira tarefa de R.S. era descobrir o IP, o tal do endereço de protocolo de internet, que ligaria o e-mail criminoso a um computador. Até ali, tudo parecia fácil demais. A própria empresa de correio eletrônico forneceu os dados depois de um pedido formal da Justiça. O mapa levava investigadores a um estabelecimento comercial na periferia de Brasília, onde funcionava uma lan house, aquelas casas que se tornaram uma febre no início dos anos 2000, antes de os celulares fazerem o que fazem hoje.

Tomorrow never knows é a última faixa do disco Revolver, lançado em 1966, e R.S. é fascinado pela mistura de efeitos inéditos criados em estúdio pelos engenheiros de gravação, comandados por George Martin, em conjunto com Lennon e McCartney. Ponto. Na lan house, começava a tarefa mais difícil de R.S.. Achar, no meio de várias máquinas, aquela que cuspiu o e-mail com as ameaças. Uma operação de tentativa e erro, até que fragmentos de transferências de arquivos de um dos computadores levaram a pistas e, por fim, a provas. O criminoso havia cometido um erro básico ao buscar, na mesma máquina que fez as ameaças, um processo anterior em que era acusado pela autoridade da República. Ao ligar os dois casos, bingo. Trabalho encerrado.

Crimes
O sucesso de investigações como a de R.S. e a especialização de agentes e peritos em crimes cibernéticos ao longo dos últimos 10 anos — como os casos contra o sistema financeiro e de pedofilia — é o único alento para o maior desafio do Estado nas eleições: o ataque dos produtores de fake news com base nos impulsionadores de conteúdo nas redes sociais. Os casos resolvidos e denunciados até agora são de um amadorismo atroz do lado dos autores das fake news. É como se um delinquente deixasse no local do crime a própria carteira, com nome, endereço, CPF e foto. Veja, por exemplo, o caso envolvendo o deputado federal Chico Lopes (PCdoB-CE). Em 27 de março, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, denunciou Lopes e outras duas pessoas por crime eleitoral. O amadorismo do trio ficou evidente pelos rastros deixados ao longo da produção de uma notícia falsa.

O Correio procurou a assessoria de Lopes, deixando telefones para contato, mas não recebeu resposta nas últimas duas semanas. A partir da própria denúncia de Dodge, porém, é possível fazer a reconstituição do crime, segundo o Ministério Público. Durante a campanha de 2016, o trio acusado teria difamado o prefeito de Santos (SP), Paulo Alexandre Barbosa, para favorecer a candidata Carina Vitral, do mesmo partido de Lopes. A partir da fabricação de um site, o Caiçara revoltado, “foram imputados a Barbosa fatos ofensivos a sua reputação”. As fake news eram impulsionadas no Facebook. Uma delas, citada na denúncia, dizia que o prefeito tinha um caso com o ator Alexandre Frota.

Ao quebrar os dados telemáticos da página de notícias falsas, os investigadores chegaram a um assessor e a um publicitário ligados a Chico Lopes. Pelo menos dois IPs que davam acesso à página estavam vinculados à Câmara dos Deputados, expondo o amadorismo do trio. A trapalhada foi ainda maior. Para impulsionar a fake news nas redes sociais, o grupo fez 12 pagamentos ao Facebook, todos com cartões de crédito com os nomes deles mesmos. Naquele caso, as fake news não tiveram poder para influenciar a campanha. Barbosa acabou reeleito e Carina ficou em segundo lugar. Chico Lopes e os dois acusados foram obrigados a pagar indenização de 100 salários mínimos ao prefeito e cerca de R$ 30 mil a uma instituição de caridade, a Casa de Ismael, na Asa Norte, em Brasília.

Numa tarde quente de Brasília, há duas semanas, R.S. falava com entusiasmo dos Beatles: “Tomorrow never knows foi fonte de influência na música eletrônica também”. Ao falar das fake news, porém, há um certo ceticismo no combate: “Nos Estados Unidos, o próprio FBI levou uma lavada dos russos. Só começaram a entender quando o estrago já estava feito”. Uma equipe norte-americana chegou a participar de reuniões no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e na Polícia Federal. Hoje, a corporação brasileira tem uma cartilha e uma equipe especial para o combate às fake news. “A ideia é criar um protocolo de investigações, pois não temos certeza de como serão os ataques no Brasil”, afirmou o delegado Thiago Borelli Thomaz, coordenador da equipe que trabalha na sede da PF, em Brasília. Hoje, não há nenhum caso sob investigação por ali. Pelo menos por ora.

Um dos cases da Polícia Federal é a Operação Voto Livre, deflagrada em março, no Espírito Santo. A ação foi desencadeada depois de denúncia sobre a circulação de pesquisas eleitorais falsas em grupos de WhatsApp. “O problema é que sempre reagiremos a uma denúncia”, disse um investigador. A diferença para as investigações de crimes cibernéticos, como a pedofilia, por exemplo, é total. Em 2008, a Polícia Federal criou um software, que, a partir de palavras-chaves, é possível identificar a troca de arquivos entre pedófilos. Com as mudanças na legislação nos últimos anos, que criminalizou não apenas o envio do material contendo fotos de crianças, mas a posse, as investigações avançaram. No caso das fake news, tal coisa parece distante. Será o que os peritos chamam de investigação post morten.

Mercenários
Em 20 de janeiro, o Correio iniciou a série de reportagens “Fake News, a verdade sob ataque”, a partir do relato de três produtores de notícias falsas. Com alto conhecimento de tecnologia e marketing político, esses homens são contratados por políticos a partir de estruturas secretas, distantes dos comitês oficiais de campanha. Com uma equipe de no máximo 20 pessoas, formadas por ex-jornalistas especializados em investigações, técnicos em informática, atores, dubladores — capazes de imitar 30 vozes de políticos e celebridades — e até policiais militares. As tarefas vão desde embaralhar IPs, disseminar conteúdos a partir de perfis falsos, criar grupos sociais, impulsionar as redes com cartões de créditos sem identificação e enviar as fake news por e-mail ou WhatsApp.

“As fake news que marcam as disputas eleitorais contemporâneas são mais uma faceta da evolução do crime”, afirmou o presidente da Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF), Marcos Camargo. “Para fazer frente a isso, a polícia precisa ser cada vez mais investigativa, científica e menos burocrática. Só assim é possível lidar com esse tipo de crime que depende de investigação de ponta para ser solucionado”, destacou. Para Camargo, os vestígios deixados pelo criminoso devem ser analisados de forma rigorosa e isenta para podermos coibir e punir esse tipo de ação. A aposta dos investigadores será derrubar o primeiro búfalo de uma manada. “Será qualquer búfalo, mesmo que não seja um simples usuário, que está longe do grande jogo das fake news”, disse R.S..

O jogo das farsas
Durante a Segunda Guerra, no início dos anos 1940, os aliados criaram um exército falso, “comandado” pelo general norte-americano George Smith Patton Jr. A tentativa era despistar os nazistas, chamando a atenção para Pas-de-Calais, na França, quando, na verdade, a estratégia era invadir o território inimigo pela Normandia. Nas proximidades de Dover, do outro lado do canal na Inglaterra, foram feitas algumas encenações, a partir de equipamentos falsos, manequins representando soldados, comunicações trocadas e agentes duplos.

O episódio é lembrado pelo promotor Frederico Meinberg — coordenador da Comissão de Proteção dos Dados Pessoais do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), que conta com mais quatro integrantes — para mostrar uma das estratégias das campanhas recentes de Emmanuel Macron, na França, e Angela Merkel, na Alemanha, na tentativa de se defender de interferências externas. “Foi quase um trabalho de guerrilha, de guerra tradicional”, afirmou Meinberg na tarde da última quinta-feira, durante entrevista no nono andar do prédio do MPDFT.

“Eles criaram, para se ter uma ideia, QGs de campanhas falsas para que fossem, propositadamente, vítimas de hackers russos”, disse Meinberg. Assim como na campanha de Hillary Clinton, espiões cibernéticos supostamente ligados a uma agência militar da Rússia tentaram invadir os comitês de Merkel e Macron, usando truques de phishing, a pescaria de dados, mas deixando rastros para investigadores perceberem um protocolo comum de ataques.

Além disso, Macron e Merkel gastaram dinheiro com a checagem de notícias falsas. “Quando subia uma fake news, eles já entravam com conteúdos, com links contra a postagem falsa”, lembrou o promotor. O detalhe: o combate foi das próprias campanhas. Mas as estruturas dos Estados também começaram a se mexer, como no caso da Alemanha, que aprovou, em dezembro do ano passado, uma legislação mais dura e realista sobre os crimes na internet. No Brasil, estamos distantes de tudo isso.

Meinberg está à frente da investigação sobre os tentáculos da Cambridge Analytica no Brasil. A empresa, com o Facebook, é investigada nos Estados Unidos por uso indevido de informações de 50 milhões de perfis da rede social. O caso levou o fundador da companhia, Mark Zuckerberg, a depor no Congresso dos Estados Unidos.

O promotor não comenta a investigação aberta no Brasil. O responsável pela parceria com a Cambridge por aqui disse que encerrou o contrato e a própria empresa garantiu ter finalizado as atividades. “A empresa, na verdade, se chama SCL Elections. A Cambridge era o braço de operação nos Estados Unidos da América. A holding era a SCL, que tinha a parceria no Brasil. Então, você falar que a Cambridge encerrou as operações é uma coisa. Mas temos de nos perguntar se a SCL encerrou as operações”, afirmou.

Um dos problemas no combate às fake news por aqui está na legislação brasileira. São poucas formas de punir os autores de notícias falsas, algumas com mais de 30 anos de vigência. O Código Eleitoral, que trata da divulgação de informações inverídicas, é da década de 1960, o Penal, que prevê os crimes de injúria, calúnia e difamação, dos anos 1940. E a Lei de Segurança Nacional, de 1980, por fim, prevê punições para quem difundir boatos que causem pânico. “A discussão no Brasil é feita pelo ângulo errado. O maior problema se chama impulsionamento de conteúdo”, afirmou o promotor. Com a minirreforma política no ano passado, o Brasil permitiu o impulsionamento por parte de políticos e coligações. Mas não há qualquer regulação efetiva.

“A partir do que se viu até agora, o TSE não baixou nenhuma resolução nesse sentido”, criticou o promotor. O Correio entrou em contato com a assessoria do presidente do tribunal, ministro Luiz Fux. A resposta foi que a fonte para falar sobre notícias falsas na Corte era o próprio Fux, mas, após o primeiro contato, na segunda-feira, o magistrado não tinha disponibilidade de agenda. Uma nova tentativa foi feita na tarde de sexta-feira, também sem sucesso. Sobre a política de impulsionamentos, o Facebook deve estrear no Brasil antes das eleições, em junho, um recurso chamado “exibir anúncios”, que permitirá ver todas as publicidades que estão sendo feitas por uma página, mesmo que ela não apareça no feed de notícias do usuário.

No mesmo mês de junho, o Facebook planeja lançar um arquivo de anúncios políticos para pesquisa pública. A intenção, além de mostrar texto e imagem, é apresentar valores gastos e as informações demográficas do público-alvo de cada anúncio. Em resposta aos questionamentos do Correio sobre a política oficial de impulsionamento, o Facebook enviou a seguinte nota: “Estamos comprometidos em aumentar a transparência dos anúncios políticos em todo o mundo, inclusive no Brasil, e temos anunciado medidas concretas para dar mais informação às pessoas sobre os anúncios que elas veem. Também estamos cooperando com autoridades eleitorais sobre temas relacionados à segurança on-line.” (LC)

Seminário
O Correio promove no próximo dia 24 um debate sobre fake news e eleições, no auditório do jornal, com a presença dos maiores especialistas no tema. A abertura das inscrições será informada em breve no site do jornal.

(correiobraziliense.com, 13.05.18)