Com medo do desemprego, trabalhadores evitam pedir aumentos salariais

Especialistas acreditam que sindicatos devem se concentrar em manter empregos e cláusulas sociais. Reivindicações salariais vão ser mais fortes em estatais

O semestre que normalmente é tenso pela possibilidade de manifestações e greves por conta de reivindicações salariais de categorias fortes, como petroleiros, metalúrgicos e bancários, e que poderia ter o clima agravado pelas incertezas eleitorais, promete ser mais ameno. A alta taxa de desemprego e a reforma trabalhista, que facilitou o uso de mão de obra terceirizada, segundo especialistas, manterá os sindicatos ocupados com a manutenção de vagas. Aumentos e outras reivindicações que poderiam desaguar em paralisações tendem a ficar em segundo plano.

O economista-chefe da Opus Investimentos, José Márcio Camargo, afirmou que as pautas debatidas em assembleias não têm mais como prioridade o reajuste salarial. Agora, o importante para os sindicatos é negociar formas de manter os trabalhadores empregados. “Os sindicatos só vão sobreviver se forem efetivos na negociação. Isso não significa apenas ganhar aumento de salário, mas também manter os trabalhadores ocupados”, explicou.

Para Camargo, não deve haver reajustes muito altos. A carestia controlada — 4,48% em 12 meses até julho — joga para baixo a reposição e pode haver ganho real com um percentual baixo. De acordo como o professor de economia e especialista em mercado de trabalho Carlos Alberto Ramos, a inflação baixa garante reajuste salarial baixo. “É pouco provável que as empresas concedam reajustes altos aos trabalhadores”, afirmou Camargo.

Sobre greves, o economista da Opus é cético. Ele acredita que o desemprego alto afasta a ideia de paralisação. Na opinião dele, as campanhas tendem a ser mais tranquilas. Pelo menos, no âmbito privado. Nas estatais, entretanto, ele não descarta reivindicações mais incisivas, pois não costuma haver demissões nessas empresas.

Eliseu Silva Costa, presidente da Federação dos Metalúrgicos do Estado de São Paulo, explicou que a luta mais importante neste ano é a reforma das cláusulas sociais dos metalúrgicos por meio da renovação da Convenção Coletiva de Trabalho. “O debate sobres essas cláusulas sociais são tão importantes quanto às pautas econômicas”, disse.

Para os bancários, no entanto, a preocupação central, ainda, é o aumento real do salário. Segundo a presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf) e coordenadora do Comando Nacional dos Bancários, Juvandia Moreira, o crescimento dos lucros nos bancos justificam o pedido de aumento. “Só a reposição da inflação não é suficiente para o setor que está tendo esse lucro”, criticou. Os petroleiros não terão pautas salariais esse ano, devido a um acordo coletivo de dois anos, fechado em 2017, que prevê reposição da inflação.

Mais de 63 milhões de endividados no país

O ritmo lento da retomada da economia dificulta o equilíbrio financeiro dos brasileiros. Dados da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) mostram que cresceu 4,31% o número de consumidores com restrição no CPF em julho em comparação com o mesmo período de 2017. No mês passado, havia 63,4 milhões de pessoas negativadas, ou seja, 41% da população adulta. A professora Daniela Xavier (foto), 35 anos, está na lista do SPC. Por conta de um problema médico, deixou de pagar o cartão de crédito por alguns meses e a conta virou uma bola de neve. Quando viu, ela devia R$ 100 mil. “Tive que vender o carro e, mesmo assim, ainda não consegui quitar o débito”, lamenta.

(correiobraziliense.com, 10.08.18)