Crise econômica aumenta em 6,3 milhões a quantidade de miseráveis no Brasil

Jovens, pessoas com ensino médio incompleto e moradores do Norte e do Nordeste foram os mais prejudicados

A cerca de 15 minutos de carro do Plano Piloto, na Cidade Estrutural, pode-se encontrar uma face da pobreza. Adelmar dos Reis Santos, 27 anos, sobrevive com doações e bicos. Ele costumava recolher produtos descartados no antigo lixão, mas, com o fim do aterro, não consegue emprego e está completamente refém da miséria. Essa é a situação de 23,3 milhões de brasileiros, segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Entre 2014 e 2017, o número de pessoas que recebem abaixo de R$ 232 por mês cresceu em 6,3 milhões — o equivalente a uma população maior do que a do Paraguai.

Feitro pelo economista Marcelo Neri, o estudo constatou que houve diminuição da renda das pessoas, e que jovens, pessoas com ensino médio incompleto e quem vive no Norte e Nordeste foram os principais prejudicados. Desempregado, Adelmar Santos afirmou que depende de outros para viver. “Às vezes, a gente pega uns medicamentos, um pouco de comida”, contou. “Um arroz, feijão. Quando dá, a gente compra uma carne”, completou. O maior desejo dele é conseguir um emprego para ganhar um salário e sair da situação de vulnerabilidade.

Neri explicou que, além de aumentar a miséria, o desemprego gerado pela recessão de 2015 e 2016 distanciou os mais ricos dos mais pobres. “A desigualdade está subindo há mais de dois anos e meio”, ressaltou.O economista observou que, até 2014, o percentual de pessoas em situação de pobreza vinha caindo e que, naquele ano, a desocupação estava em 6,8%, com 6,1 milhões de pessoas sem emprego, bem menos do que os 12,9 milhões de hoje.

O índice da pobreza saiu de 8,38% em 2014 — quando marcava a mínima histórica — e atingiu 11,18% em 2017, taxa similar à registrada em 2011. A renda per capita, por sua vez, caiu entre 2014 e 2016, voltando ao mesmo nível de 2012. Só em 2015, a perda foi de 7%. Nos últimos dois anos, o país conseguiu recuperar 40% das perdas, mas ainda acumula recuo de 3,44% na renda entre 2015 e 2018. O retrocesso foi pior para os jovens (20,1% na faixa de 15 a 19 anos e 13,94% entre 20 e 24 anos), para pessoas com ensino médio incompleto (11,65%), no Norte (6,08%) e no Nordeste (6,43%).

Além disso, o índice de Gini, que mede a desigualdade social, mostrou que, do fim de 2014 até junho último, a concentração de renda cresceu 50% mais rápido do que no período de melhora na distribuição de renda, iniciado em 2001”, explicou Neri. Em poucos anos, a crise destruiu o que o país havia avançado em 17 anos.

Segundo o economista da FGV, a pobreza deu um grande salto em 2015, quando 3,6 milhões de pessoas entraram na lista de vulneráveis. “Foi um período em que o desemprego fez o país recuar seis anos em apenas seis meses. Além disso, a inflação superou dois dígitos no ano (10,67%)”, disse Marcelo Neri. “Depois disso, apesar da retomada da economia, que melhorou a renda, a desigualdade aumentou, o que mostra que os mais pobres foram os mais prejudicados pela crise”, acrescentou.

Vulnerabilidade
É o caso de Fernando Soares, 31 anos, e a esposa Tamires, 26, que têm quatro filhos. “Eu não consigo arrumar mais trabalho. Não tem bico, não tem lixo para catar”, lamentou Soares. O barraco onde ele mora deixa claro que a dificuldade é extrema. Em cerca de cinco metros quadrados, vivem seis pessoas. Eletricidade e água são fornecidas por meio de “gatos”. “É isso ou a gente não sobrevive. Não tenho dinheiro para pagar conta de luz e água.”

Cristiana Galdino, 33 anos, reclamou que o preconceito com os pobres também é uma barreira para conseguir trabalho. “Sempre que vou buscar uma oportunidade e digo que moro na Estrutural, já me excluem”, disse. Para o professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB) Carlos Alberto Ramos, essa situação contribui para o desalento no mercado de trabalho, que engloba 4,8 milhões de brasileiros, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Procurar emprego tem custos. Você tem de se locomover, é demorado. Depois de muito tempo sem conseguir nada, as pessoas acabam desistindo e abraçando a pobreza”, analisou.

(correiobraziliense.com, 5.10.18)