Última semana da disputa ao Buriti promete incendiar as ruas do DF

Vésperas da votação devem ser marcadas por ataques e trocas de ofensas ainda mais duros do que os vistos até agora entre buritizáveis

Marcado pelo tom belicoso e a troca de acusações entre os dois postulantes ao comando do Palácio do Buriti, o segundo turno das eleições entrou na reta final. O clima que já estava quente deve ferver na última semana antes da votação no Distrito Federal. Com a disputa mais desigual do país na etapa decisiva da campanha, na qual um candidato concentra dois terços das intenções de voto de acordo com as pesquisas, os próximos dias prometem ser intensos.

Liderando a corrida pelos votos dos brasilienses, o candidato do MDB, Ibaneis Rocha, deu sinais que deve desacelerar nos próximos dias. Nesse domingo (21/10), ele dispensou o clássico roteiro de fazer corpo a corpo com a população nas feiras do DF. O advogado reuniu-se com integrantes da equipe de campanha e foi à missa “agradecer e pedir força nesta última semana”. Ele também não terá compromissos públicos nesta segunda-feira (22). Ibaneis conta com 75% das intenções de voto, contra 25% de Rollemberg, conforme apontou a última pesquisa divulgada na semana passada.

Tentando reduzir a diferença e reverter votos, o candidato à reeleição Rodrigo Rollemberg (PSB) não desperdiçou o último domingo antes da votação em segundo turno e priorizou o contato direto com os eleitores. Cercado de apoiadores, o atual chefe do Executivo distrital distribuiu panfletos e santinhos, comeu pastel e bebeu caldo de cana na Feira do Guará. Ele também percorreu as barracas da Feira da Torre de Televisão.

Mesmo com o cenário complicado, o socialista manteve o tom positivo e disse acreditar na virada. “Temos levantamentos internos mostrando que a nossa diferença com relação ao adversário é de apenas 15 pontos”, destacou. Rollemberg falou sobre a importância do corpo a corpo nos últimos dias de campanha e deve apostar no contato direto com os eleitores pelos dias restantes desta campanha.

Apesar de adotarem estratégias diversas, os dois candidatos não abriram mão dos ataques. Neste domingo (21), o centro dos desentendimentos foi a situação das contas do governo. Ibaneis afirmou, em debates e discursos, que Rollemberg esconde um rombo de R$ 2,4 bilhões nas contas públicas.
O candidato à reeleição reagiu: “O ‘Inganeis’ procura confundir a população. Se tem déficit, por que ele está prometendo aumentos de R$ 4 milhões por ano?”, questionou Rollemberg.

Ibaneis contra-atacou: “O déficit existe, é só ele [Rollemberg] fazer as contas. Só fica jogando a culpa no passado em vez de resolver os problemas. Se eu ganhar, vou esquecer que ele existe e vou cumprir com as minhas promessas”, prometeu o emedebista.

Como o Metrópoles mostrou nesse domingo (21), mesmo com a expressiva alta na arrecadação de 2018, o político que tiver em mãos a chave do Palácio do Buriti a partir de 1° de janeiro de 2019 já entra na Casa com uma dívida de pelo menos R$ 600 milhões. A atual gestão reconheceu que não conseguirá fechar o mandato de Rollemberg com as contas em dia. Assim, a falta de caixa para cobrir as despesas de 2018 deixa restos a pagar para a próxima gestão.

Acirramento
A tendência de que os ataques pessoais e a troca de acusações se acirrem é apontada pelo cientista político e especialista em políticas públicas pela Universidade de Brasília (UnB) Emerson Masullo. “Infelizmente, as discussões devem continuar. É importante saber o histórico e a vida particular do candidato. Mas enquanto o debate está preso aos ataques e aos temas que geram impacto e interesse imediato, como a regularização fundiária, por exemplo, não estão sendo discutidas pautas importantes como geração de emprego e combate à violência”, afirmou.

Segundo o especialista, será difícil Rollemberg reverter a desvantagem apontada nas pesquisas. “Vimos que ele não conseguiu capturar os votos dos candidatos que ficaram no primeiro turno. Além disso, há a resistência do eleitorado a votar em políticos tradicionais, após enfrentar diversos escândalos. Vivemos o colapso da saúde, do transporte, da educação. E o Ibaneis tem um discurso muito forte, de outsider, de que não vai receber salários”, apontou.

Para Masullo, um fator que pode influenciar na decisão dos brasilienses: o posicionamento dos postulantes ao Buriti quanto à disputa pelo Palácio do Planalto. Rollemberg declarou que manterá a “neutralidade”. Já Ibaneis disse que irá anunciar seu apoio nos próximos dias. “Isso ainda pode provocar movimentações de voto”, avaliou o cientista político.

Os brasilienses destinaram 58,37% dos votos a Jair Bolsonaro (PSL), o que o tornou o presidenciável líder no primeiro turno no DF. Fernando Haddad (PT) conquistou a terceira posição, ao obter 11,87% dos votos brasilienses, ficando atrás do pedetista Ciro Gomes, com 16,6%, no território candango.

Briga nos tribunais
Além do embate direto, os buritizáveis também se enfrentam nos tribunais. No sábado (20), os advogados de defesa de Rollemberg protocolaram, no Tribunal Regional Eleitoral (TRE), ação pedindo a investigação de possíveis crimes cometidos por Ibaneis durante a campanha eleitoral. Entre eles, abuso de poder econômico e impedimento do exercício do voto

Um dos casos descritos no processo é o das promessas feitas pelo ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil no DF (OAB-DF) na Colônia Agrícola 26 de Setembro, no dia 30 de setembro.

Na ocasião, Ibaneis disse que iria reconstruir, com o próprio dinheiro, as casas derrubadas pela Agência de Fiscalização do DF (Agefis) na região.
O episódio foi alvo de duas outras ações. No dia 3 de outubro, os então buritizáveis Alberto Fraga (DEM), Eliana Pedrosa (Pros), Rogério Rosso (PSD), Alexandre Guerra (Novo), Paulo Chagas (PRP) e Fátima Sousa (PSol) denunciaram o emedebista ao Ministério Público Eleitoral (MPE). A candidata do PSol também protocolou pedido de investigação na Corregedoria do MPE.

Para o doutor em ciência política pela Universidade de Salamanca, na Espanha, Wladimir Gramacho, a única questão que pode desestabilizar a votação no segundo turno é uma decisão judicial. “O atual governador está mal avaliado há muito tempo e tem mostrado a sua dificuldade em convencer o eleitor de que ele merece ser reeleito. A única incógnita que temos é o andamento, ou não, dos processos contra Ibaneis”, afirmou.

O especialista criticou a inércia da Justiça Eleitoral. “As declarações feitas contra Ibaneis são graves. Vemos uma candidatura com óbvias desigualdades financeiras. A Justiça Eleitoral tem sido leniente. O eleitor precisa ser protegido ao longo do processo. A demora das decisões acaba ajudando a ludibriar as pessoas quando deixa que o processo eleitoral seja concluído para depois decidir sobre possíveis crimes cometidos”, ressaltou Gramacho.

(metropoles.com, 22.10.18)